Ao terminar de verificar todo o equipamento e checar os últimos detalhes fui inundado não pelo medo, mas pelo imenso respeito que este tipo de mergulho desperta. Respeito pelo mar, respeito pela física, respeito pela nossa condição de frágil turista em um ambiente ao qual não pertencemos. Respeito pelo meu instrutor Joe e pela minha dupla Anistela – o quê será que passava pela cabeça deles neste momento?

A vontade de continuar vinha da certeza de um planejamento bem feito, escrito nas planilhas mas praticamente decorado de tanto ler e estudar. Vinha também dos mergulhos anteriores, lidando com a profundidade e com as pequenas intempéries que tanto melhoram a nossa técnica. Muito mais do que “cumprir a missão” o objetivo agora era dar continuidade à evolução contínua da experiência de mergulho que sempre abria portas para aventuras cada vez mais interessantes.

O mergulho técnico possui dentro dele um outro mergulho que não é visível, um mergulho interior em nós mesmos, uma experiência profundamente reflexiva. As longas paradas de descompressão, contemplando o ambiente em silencio, concentrados na nossa respiração, às vezes se tornam uma experiência muito próxima da meditação. Somos surpreendidos pelo pensamento voando – como foi que eu cheguei neste assunto?  – e trazemos o foco de volta para o presente, para a profundidade em que estamos e para o run time.

Se tivesse de escolher uma trilha sonoro para este mergulho específico seria A Criação do Haydn. No fundo dominava a escuridão e o frio, o neoprene comprimido de um jeito que eu nunca havia visto antes.

Em um determinado momento da subida olhei para cima e vi os raios de luz penetrando na vertical, quase mostrando o caminho. Lembrei-me  de quando o coral (da orquestra) finalmente grita luz, e a sinfonia começa de verdade.

O fundo, até então pura areia, se transformou numa sólida barreira de corais e algas.

Subindo para o raso a imensa quantidade de peixes sobre o coral e contrastando com o azul para fora, uma explosão de vida simultânea com a sensação da água quente de volta, e os nossos colegas nos encontrando para ajudar com os cilindros e registrar o retorno.

Finalmente, após a descompressão cumprida rigorosamente, a primeira respiração fora da água sem aparelhos, o céu de um azul mais claro e o barulho da arrebentação das ondas.

Pode parecer narcose, mas é difícil não pensar que ao contemplar o mar assim, somos testemunhas de algo maior.

Agradeço profundamente ao meu amigo e instrutor Joe, por tornar isto possível, agradeço à Anistela pelo convite para este mergulho e pela confiança.

Sou imensamente grato também  à minha esposa Rozália, que resgatou em mim a paixão pelo mergulho.